Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu…Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu…Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu…
Difícil é perceber que sua importância não é mais a mesma, e que nada foi dito a respeito.
A pele chega a sentir o corte afiado da indiferença.
O ouvido cega.
Os olhos deixam de ouvir.
Sentido algum faz sentido.
Só a dor faz companhia.
E passa o vento frio pela pequena fresta da janela.
Toca o dedo do pé, esfria a alma.
E passa o vento frio pela pequena fresta dos dias.
Toca o dedo da alma, esfria o pé.
E passa o vento frio…
Toca o intocável.
Esfria o impossível de aquecer.
E o que ela achou que era poesia, poesia não o é.
Da poesia mesmo, restou somente a intenção. Falha.
Triste, busca por reconstruções, soluções, explicações.
Respostas vazias e opacas rebatem nas paredes.
Artefatos de decepções cortam seu rosto.
Chora sua poesia.
Sua poesia chora.
Andou pelas calçadas a noite toda, sem rumo, sem intenções definidas, com uma garrafa já pela metade em uma mão, e um pacote de cigarro recém comprado na outra. Não fuma. Indagou sobre a vida, seus medos, suas frustrações. Gritou alto, pra ver se alguém respondia. Só que não chegou a conclusão alguma, mas por culpa quase integral do álcool e de suas perdas de consciência quase constantes. Era inteligente demais para aceitar tudo aquilo. Antes a embriaguez que ter que lidar com a realidade. Tragou, bebeu, caiu, levantou, andou, chorou, sofreu. Cedeu.
No dia seguinte, a notícia no jornal. Triste, mas tinha que ser.
Seu ser, sem sentido e afogado em inexistência.
Quem precisa de certeza, certo não está.
Sabe se lá, se lá é o lugar certo.
Sabe se aqui é certo estar?
Pensa, pensa, pensa demais.
Pergunta, pergunta, ouve além.
O limiar entre pensar e fazer é pequeno. Entendo.
Mas quem garante que já não foi?
E se não foi, será?
Se será, então não é para ser.
Pedras, pedaços, papéis.
Toda tinta de caneta que cai, escorre. Não pára.
Toda lágrima que fica, retrai.
O sol não saiu essa manhã.
A agenda sinaliza 31, o pensamento 30.
No coração ficou a dor.
No tempo que passou, o amor.
Eu quero ser a exceção. Não quero atitudes moldadas, pensamentos fabricados e convenções infundadas. Não vejo sentido em um mundo onde as pessoas machucam umas as outras com tanta naturalidade e frequência e jogam o respeito pela janela. Não encontro razões para acreditar que o ser humano mudará, mas a minha parte eu preciso fazer, muito mais por mim do que por qualquer outra pessoa.
GUARDAR
“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.”
Antônio Cícero
E entre soluços, parte de sua dor salta pelos olhos, escorrendo pelo rosto até encontrar o chão. Sua respiração é falha e com sua visão já turva de lágrimas, mal consegue chegar ao quarto, seu melhor refúgio.
Pega papel e caneta, começa a escrever, escrever, escrever. Sem pensar, deixa que suas angústias tomem o papel e que ali se eternizem. O alívio só vem depois do quinto parágrafo, quando seus dedos, um tanto quanto adormecidos, não conseguem mais escrever. As lágrimas já não existem mais, restando somente a ponta do queixo ainda umedecida. Sua respiração agora é calma e restauradora. Pensa no que sente e no que gostaria de sentir. Respira fundo, mas não chega a grandes conclusões. Por outro lado não se imagina sentindo nada tão fascinante e inesquecível como antes. Tudo passa.
Tem pouco tempo de vida, mas sente que com a companhia das palavras e de seu poder imensurável atingirá quantos anos mais quiser ou precisar.
Tudo depende dela, de mais ninguém.
Eu queria ser especial, assim como os grandes poetas, e ter o dom de colocar em palavras tudo que sentimos e que não conseguimos explicar. Mas entre vírgulas, espaços e pontos finais, tropeço nos pensamentos fugazes e desordenados que buscam combinações dentro do alfabeto para no final caírem sobre o papel em branco, uma a uma. Mas entre perdas e atritos, nada resta senão a sensação de que as combinações nunca dizem tudo que queremos e que o alfabeto inteiro continua sendo insuficiente.
De volta à estaca zero, concluo que me faltam palavras, mas sobram sentimentos…
E parece que não há mais espaço para ela dentro dela mesma. Sobra sonhos, pensamentos, planos, noites sem dormir e frios na barriga. O sorriso já não deixa seu rosto há algum tempo e nem mesmo as olheiras tiram a beleza do seu olhar. O céu deixa a água cair há dias, sem ter pressa de parar. Nem mesmo as brisas mais frias conseguem tirar o calor de seu coração.
Ela está feliz. Muito feliz.
Em se tratando de rebeldia
Sem causa meu coração não é.
Entre socos e pontapés
Luta ele contra as tristes emoções.
Um dia acaba, outro começa.
A esperança não cessa.
O calor não morre.
Só o túnel
Que sem luz
some.
Só o túnel
na escuridão de ser.
Um túnel só.
