Monthly Archive for março, 2010

.certezas

Quem precisa de certeza, certo não está.
Sabe se lá, se lá é o lugar certo.
Sabe se aqui é certo estar?
Pensa, pensa, pensa demais.
Pergunta, pergunta, ouve além.
O limiar entre pensar e fazer é pequeno. Entendo.
Mas quem garante que já não foi?
E se não foi, será?
Se será, então não é para ser.

.aleatórias

Pedras, pedaços, papéis.
Toda tinta de caneta que cai, escorre. Não pára.
Toda lágrima que fica, retrai.
O sol não saiu essa manhã.
A agenda sinaliza 31, o pensamento 30.
No coração ficou a dor.
No tempo que passou, o amor.

.exceção

Eu quero ser a exceção. Não quero atitudes moldadas, pensamentos fabricados e convenções infundadas. Não vejo sentido em um mundo onde as pessoas machucam umas as outras com tanta naturalidade e frequência e jogam o respeito pela janela. Não encontro razões para acreditar que o ser humano mudará, mas a minha parte eu preciso fazer, muito mais por mim do que por qualquer outra pessoa.

.guarde o que guarda

GUARDAR

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.”

Antônio Cícero