Monthly Archive for agosto, 2009

.os dias mais felizes – III

Gosto de lembrar de você deitado ao meu lado, em seu sono tranquilo e restaurador. Ouvir sua respiração tão perto acalentava meu coração, trazendo à tôna os sentimentos mais sublimes e inexplicáveis. O mundo todo parecia silenciar.

Teus olhos sonolentos abrindo vagarosamente, acompanhados de um sorriso preguiçoso, aumentavam gradativamente o meu desejo de vivenciar momentos assim pelo resto dos meus dias. Ao seu lado, sempre.

Era tudo tão simples…

Mas aqueles dias se foram, e minhas impressões deixo aqui, como forma de expressar cada minuto de felicidade, cada detalhe de saudade que faz meu sorriso escapar, sem intenção.

E ainda que tudo mude continuamente, que dias menos felizes surjam ou que fatores externos interfiram no que construímos, meu amor será seu.

Somente seu.

.pra sempre

Eu lembro bem do dia que você chegou em casa. Aquela bolinha gorda cheia de pelos, saltitando pela sala, se escondendo embaixo dos sofás, um bebê ainda, cheio de energia. Um protótipo de cão exibindo toda sua fofura e arrancando sorrisos de quem fosse.

Lembro das brincadeiras que fazíamos, dos banhos que você fugia, do seu medo de barulhos fortes, de você rolando no quintal, fazendo charme e latindo com aquela carinha de safado que só você tinha. Me recordo das brigas com as outras cadelas que trouxemos para te fazer companhia. Sempre imponente e gênio forte, mas justamente por ser assim que eu te admirava. Meio ranheta, confesso, mas sempre querido.

Já sinto saudades de te ver correndo atrás das garrafas de plástico, furando as bolas da molecada que caíam no quintal, espantando os gatos intrusos e pulando em cima da gente quando chegávamos em casa. Só não gostei muito quando em um dia meio rebelde você fez xixi na perna da calça da nossa visita. Coisa feia, hein. Tsc tsc tsc. Mas até sua rebeldia te fazia especial.

Foram tantas coisas, tantas situações, que eu não seria capaz de descrevê-las em detalhes sem deixar que as lágrimas escapem. Pelo menos não hoje. Nosso Falcão, “bobão”, “gostosão”, “bonitão”, “safadão”, “molecão”… tantos adjetivos.

Me arrependo muito de nos últimos tempos ter estado tão ausente, de ter afagado seu focinho com menos frequência, de não ter sentado em frente de casa e trocado palavras você.  Lembra dos meus desabafos? Dos meus choros silenciosos, sentada ao seu lado? Às vezes só você me ouvia.

Mas hoje você se foi.

Me fez segurar o choro ao sair de casa e te ver ali, esperando para ser levado a um lugar digno da sua grandeza, para que assim possa descansar em paz. Deixou no lugar nos seus latidos um vazio expressivo, mas também muita saudade e belas recordações espalhadas por esses 12 anos.

Doze anos.

Não sei como me sentirei hoje ao chegar em casa e não te encontrar no tapete da porta principal. Mas a vida é assim, um ciclo repleto de ganhos e perdas, a todo momento.

Fique bem amigo. Você foi, de longe, o melhor. E sempre será.

falcao

meu focinho preferido, pra sempre

.os medos

Às vezes a gente só tem medo de viver. Só.

Medo de deixar que os dias provoquem grandes mudanças, que tragam situações complicadas demais e que levem pessoas para longe. Medo de descobrir que seus olhos ganharam novas rugas e que suas experiências limitam-se a alguns momentos de profundas tristezas e outros de grandes alegrias. Deveria ser diferente?

A gente tem medo de perder quem amamos, ou simplesmente de não sermos mais amados como antes. Ora, deixar de ser. Ser deixado. Antes. Agora. E agora? Vem o medo de ter que reaprender a conviver consigo mesmo, sozinho, ainda que não eternamente.

No fundo não temos medo do que não conhecemos. O que já sentimos bota mais medo que qualquer gruta escura escondida em nossos corações, pois talvez exatamente nessas é onde encontramos o que precisamos. Nossas luzes insubstituíveis.

O medo fica no caminho, jogando pedras onde tudo poderia ser fácil e leve. Fecha as portas e janelas do casarão repleto de bons sentimentos que temos para oferecer, colocando na fachada um enorme e intimidador aviso: “cuidado, viver dói”!

E você acaba acreditando. Acaba se convencendo de que não consegue fazer tudo que te faria feliz. Se limita a viver superficialmente e a colecionar pequenos fracassos em meio às tantas possibilidades de vitória, sejam elas pequenas ou grandes. Tamanho não importa.

O que talvez realmente importa é saber identificar até onde o medo faz algum sentido. Se vale a pena. Se tem importância.

Bom, talvez né, porque isso também depende de você.

.meu caleidoscópio

michalenka215.deviantart.com

Hoje o dia amanheceu cinza, mas eu colorida.

As calçadas que pisei, todas elas refletiam um azul céu único e insubstituível. Os portões verdes e magentas pelos quais passei abriam e fechavam espalhando brisa morna com odor suave por todos os lados, parecia até torta de morango recém tirada do forno. O cheiro do pão fresquinho na casa daquela senhora me fez recordar a casca crocante e amarelinha. Quente, quente! Com manteiga em tons suaves derretendo, amaciando, deliciando.

O parque é o mesmo, mas hoje ao longo do mesmo encontravam-se flores multicoloridas a cada meio metro. Contei todas, no total 257 e mais algumas pétalas perdidas entre as gramas. Puras, belas, suaves. Foi-se o parque, com todo o seu caramelo e vermelho sem igual.

Virei na segunda esquina, à direita. Mais alguns metros de cores que só eu via, de janelas e portões que só para mim abriam-se. Parei para amarrar o cadarço, uma borboleta pousou no meu nariz. Sorri. Ela sorriu de volta e voou batendo suas belas asas em tons pastéis cintilantes.

O fachada da padaria era rosa e suas portas creme. A pequena farmácia amarelo ouro, com rabiscos laranjas e respingos pretos, bem pequenos.

Respirei profundamente, passei pelo enorme muro da escola carmim, desliguei meu player mental e finalmente cheguei ao meu destino.

Estamos no meio da tarde e a chuva continua. O céu escureceu. As janelas se fecharam.

Mas minhas cores ainda não saíram do lugar.

.grãos de areia… tão fininhos

O amor é uma palavra
Que enfeita, que laça
Abraça e esconde
Outros desejos

Desejos são delírios
Lírios que dançam
Iludem, balançam corações

Corações
São pequeninos
Grãos de areia
Tão fininhos
Que qualquer vento menino
Leva pra outro lugar

Olhos nos olhos
Que temos tempo
Pois tudo é tão simples
Simples de achar
Que um sentimento
Não pede palavras
Pois as palavras se perdem
No tempo
Um sentimento
Não pede palavras
Pois as palavras voam
No vento

Letra de Lula Barbosa. Conheci ontem em um sarau literário que aconteceu no Sesc aqui da minha cidade, Presidente Prudente, pela voz do próprio. Poesia, vozes, choros, palmas, brilhos, sentimentos misturados resultando em quase 2 horas de sensibilidade a flor da pele.

.seja qual for…

“A canção tocou na hora errada, e eu que pensei que sabia tudo…”

Quando você menos espera o seu player seleciona randomicamente aquela música que você não precisa escutar agora, pois ela vai te fazer lembrar de coisas que você não quer lembrar. Talvez até te faça chorar por tudo que passou. E depois sorrir. Quem sabe? Quem sabe você vai revirar de novo todo seu passado em busca de respostas para as mesmas perguntas que não foram respondidas naquele tempo que ficou para trás. Vai fechar os olhos e imaginar como teria sido diferente se… Se. Mas. Porque. Enfim.

E então, depois de se render a alguns segundos de solidão e tristeza, você vai levantar os olhos, enxugar as lágrimas e selecionar a próxima música, seja ela qual for. Sempre vai provocar algo, mexer, incomodar, aliviar, inspirar, acalmar, entristecer, encantar, fascinar, energizar, enlouquecer, irritar, entre todas as outras tantas possibilidades que ela nos traz. Sempre.

Mágica e surpreendente, desde que o mundo é mundo.

.tiredness

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empty-intentions.deviantart.com

O dia me deu trabalho, a noite me dá sonhos. O corpo pede descanso, os pés apertos, os cabelos afago. A pele pede carinho, os olhos olhares, os braços… braços. O rosto quer toque, os pelos arrepios, os lábios beijos. O ouvido quer música suave, o nariz cheiro de banho tomado e a alma… a alma só quer paz.