Monthly Archive for março, 2006

.se dar conta

13:40h. Sala vazia, luz apagada, música ao fundo. Cruzo os braços, olho fixamente a tela do computador em minha frente, me perco. Não sinto sono, não sinto fome, nem cansaço, nem calor, nem frio, nem… nada. Vazio de parede a parede, do chão ao teto. Isso me remete a época em que eu só me sentia bem se estivesse sozinha. Pegava meus papéis, lápis de cor, canetas e afins, me enfiava em um cômodo qualquer e ficava lá por horas… eu e eu.

Vivia no meu mundo de imaginações infantis, de desenhos coloridos, de casinhas “mal” projetadas, mas nem por isso menos graciosas. De cachorros que não latiam, gatos que não miavam, mas que me diziam muita coisa, só pelo fato de estarem ali, me fazendo “companhia”, com todas suas cores, formas e trejeitos únicos.

A mãe chamava, eu não escutava. Encontrava-me imergida em pensamentos que nem sequer entendia. Não me importava se era dia, se ia chover, se o tempo passava ou se parava. Relógio praticamente não existia. Tempo era sempre… tempo. Não era vilão, nem mocinho. Era o que tinha que ser, e não o que eu queria que fosse.

Era como se todo o resto não fizesse diferença se eu também não fizesse diferença. Relação de mutualidade? Talvez. Na verdade, quase certeza. E é estranho pensar nisso agora. Às vezes é resultado da solidão, mas não aquela que todos se referem (na maioria das vezes), mas sim aquela que todo mundo tem um pouco, mas que nem sempre se dá conta.

E tudo isso só me faz pensar que “se dar conta” é a melhor coisa, ainda que pareça o contrário. Afinal, hoje em dia é tudo tão corrido, tão fugaz, que parar e se encontrar só consigo mesmo é momento raro. Você e você, e ponto. É quando você pára, se olha no espelho e percebe como mudou, como a vida te marcou e como você está mais bonito/feio/velho/diferente. Não só por fora, mas por dentro também.

Você se dá conta que o mundinho de casas mal projetadas ainda existe, mas que agora a edificação é diferente e que teve todo um aprendizado por trás. Percebe que algumas pessoas passaram pela sua casa e brincaram com seus cachorros, acariciaram seus gatos e também partilharam suas imaginações. Que solidão nada mais é do que um reencontro, um desabafo, todo um retrocesso, que só para contrariar mesmo, eu digo que pode ser positivo.

Basta querer que seja. E ainda que a música me faça pensar em “deixar esse mundo por enquanto”… eu prefiro ficar nele mais um pouco.

Nele, e em todos os outros.

(texto de 03.03.2006)

.imaginação

É ela que me puxa, que atrai, e que trás para perto o que quero. Meu ímã, meus extremos, meu palco de shows incomparáveis. Minha loucura explícita, minha caixinha de sonhos arrebatadores. Meu calor, meu frio, meu meio termo não tão meio assim. A âncora que me pára, o vento que sopra a vela que me leva, e leva… leve.

Meu conserto, meu acerto, meu desarranjo. Meu erro, minha certeza, minha desilusão.

Minha volta ao mundo sem sair do lugar.

Meu A, meu B… meu Z.

Meu ponto chave.

Meu .C

(texto de 01.03.2006)