.eu não

Tristezas temporárias intensificam a vida.
Ser feliz o tempo todo entorpece.
O pensamentos mancos poderiam encontrar logo um lugar para repousar,
Mas ao contrário, refazem os dias com nuvens pesadas e cinzentas,
Deixando toda sorte de inquietação pairando no ar.
Se você é feliz assim, tudo bem.

Mas eu não.

.hoje

Hoje, quando acordei um tanto quanto assustada com o barulho do despertador, e olhei você dormindo tão tranquilo e respirando tão calmamente, me acalmei também e pensei ser a pessoa mais feliz do mundo.

E fui.

Todo mundo um dia acaba sendo, em algum momento, nem que seja por segundos.

.the new life has arrived

Foto por Gilson Lorenti

933 dias haviam se passado quando, finalmente, nos encontramos no altar. Dias longos, curtos, de muito frio ou calor, tristes, silenciosos, marcantes, inesquecíveis. Dias mais que suficientes para compartilharmos o conhecimento necessário acerca um do outro, pelo menos até o momento. E eu que não acreditava mais em dias assim, finalmente, e felizmente, me convenci de estar completamente enganada.

Foram 933 dias intensos, em sua maioria. Os que não foram, valor também não deixaram de ter. A vida sempre nos reserva períodos de inércia emocional, ou algo parecido, para que possamos nos encontrar em meio as tão necessárias reflexões e nos livrar de tudo que não faz parte da nossa essência. Só os melhores sentimentos sobreviveram. Só dependeu de cada um, de mais ninguém.

E o momento chegou. Quando o vi de longe, lá no fundo do corredor extenso, me olhando e sorrindo timidamente, todos os músculos do meu corpo sorriram juntos, proporcionando uma felicidade impossível de expressar. Nessa hora nada se pensa, prevalece o sentir. Tudo passa em um piscar de olhos, mas nem a fugacidade é capaz de apagar o sorriso do rosto e tirar a leveza da alma.

Enfim, casamos. Foi tudo lindo e perfeito. Mas como para cada noiva é perfeito ao seu modo, detalhes são detalhes. No final das contas o que ficam são as memórias, as pessoas, os abraços, a celebração do amor.

Hoje faz 18 dias. Seria superficial dizer que estou feliz. Estou muito mais que feliz. Estou completa, dentro das possibilidades que me cabem. Descubro a cada dia um motivo diferente que me impulsiona a ser um pessoa melhor, e mais ainda: tenho ao meu lado alguém disposto a compartilhar toda essa evolução e essa nova vida que se iniciou.

Então, só me resta dizer: meu amor, eu te amo.

.querubim

“Cuida de mim enquanto não esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo”

Cuida de Mim – O Teatro Mágico

.eternizando

Veja só.
Que arte é essa que arrebata a alma sem avisar?
Toma as retinas para si e se apodera de cada olhar atento.
Faz dos dedos seu mecanismo de resposta ao que o coração sente.
Fixando em pequeninos pontos todos os sentimentos do mundo.

Que arte é essa?
Que vai, vem e sempre encontra lugar pra ficar.
Que constrói, resgata, sensibiliza… eterniza.
Que dá sentido pra vida.
Que faz chorar de tanto sentir.

.parte do poema

“Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos – gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas – que passarão também a fazer parte dos poemas…”

Mário Quintana – Nova Antologia Poética

.aqui

Porque sempre haverá espaço. Para a felicidade, o sorriso, as histórias de infância, os “causos” antigos, a piada sem graça do desajeitado. Espaço ilimitado, independente do que for. Seja a dor do embriagado pela perda da dignidade, ou o êxtase do recente milionário que almeja ser feliz com seu pobre dinheiro. “Pura ilusão”. O espaço se manterá sempre aberto para o amor, para o ódio, a aflição, o carinho, o respeito, a sabedoria, a compreensão, os desejos, os pecados.

Espaços são virtuais e maleáveis: vão até onde você acha que têm que ir. Cabe poesia, contos, rascunhos, livros inteiros, epopeias ou somente pequenos recados deixados em mesa de bar. Cabe cartas de saudade, bilhetes de desculpas, telegramas de solidão. “Sinto falta de mim”. Sem esquecer das dores da vida, das lágrimas, angústias, arrependimentos, nostalgias e questionamentos intermináveis. Cabe tanto que até assusta.

Nesse espaço só não cabe preconceito. Não distribui e nem acata. Revida com palavras soltas e verdadeiras, que dissolvem toda e qualquer intenção de minimizar o poder que a liberdade de escrever nos dá.

.aversão a si mesmo

E ela não sabe o que fazer com tanta sensibilidade. É de um tamanho assustador e parece não pertencer a essa realidade distorcida que prevalece acima de qualquer esperança de mudança. Todas as portas se fecharam subitamente. A raiva de pequenos momentos solitários corrói o que de melhor existe, transforma em pó. Dores, muitas dores em cada osso do corpo e em cada pedaço de carne que deteriora com o tempo. Os pensamentos queimam a razão como se fossem pequenos gravetos jogados pelo chão, insignificantes. Dói ser assim. E sabe que ser assim a machucará indefinidas vezes. A solução se perde entre ideais afundados em superficialidades. Superficialidades. Nascer assim. Viver assim. Morrer assim [?]. A mudança que ela vê não lhe traz significados. Não faz sentido. Deixa de existir no exato momento em que surge na fina linha do horizonte de suas reflexões.

.ao contrário

E ela sente que o espírito de quem ama não é dos que se conformam com a estabilidade da vida, com as escolhas certas e definitivas. Sente que esse espírito quer voar em meio aos ventos mais devastadores e só por vezes entre os mais calmos. Quer se perder entre os dias claros e escuros, sem um tostão de arrependimento guardado no bolso. Provar o novo a todo momento, sem censuras ou limitações. Cair e levantar dos tombos mais doloridos, só pra ter a sensação de que sentiu com plenitude o que queria. Ele não quer machucar ninguém, mas também não quer deixar que seu eu se perca na sanidade do dia-a-dia.

Adoecerá se assim não for.

.o que fica

http://nadyabird.deviantart.com

nadyabird.deviantart.com

Todos os seus passos nada mais são que incertos
Nos seus momentos de solidão, risca as paredes com o giz de cera dos seus 6 anos
Olha pela janela do edifício e vê sua vida passando quadro a quadro
Olhos atentos nos passos não dados, nos dias não vividos
Como consequência resta só o arrependimento
Mas nada contorna o passado
Nada retorna o que ficou para trás
O que consola é saber que também não foi em vão
E que a felicidade sempre vem
Mesmo quando não a merecemos

.esperas eternas

“Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor…”

Altar Particular – Maria Gadú

E a melodia, mais uma vez, arrepia cada pêlo do corpo e arranca cada lágrima que teima em se esconder. Enquanto os dias passam, os sentimentos se perdem em meio as dores da vida.

.impasses

Em quantas partes precisamos nos partir até nos aceitarmos como somos, e não como gostaríamos de ser?

.o que fica

Tudo sempre encontra um fim. Só a poesia permanece viva e imutável no coração dos poetas.

.pela janela

Pela janela é por onde os sentimentos correm soltos, livres e irreprimíveis.
É pela janela que eu vejo a serenidade de quem caminha pelas ruas, contando suas histórias para o mundo ouvir e distribuindo sorrisos sem discriminação.
É por onde vejo a beleza dos dias, as cores dos pequenos momentos e o sinto o cheiro do orvalho que invade o quarto todas as manhãs.
Os ruídos dos carros, o canto dos pássaros, a poeira da estrada que leva os sonhos a seus destinos mais longínquos.
É pela janela que tudo isso entra e sai, sem pedir licença ou se envergonhar.
É por ela que os olhos enxergam o que poucos reparam.
E também é por ela que entra a todo momento a crença de que a cada minuto nasce uma nova oportunidade de sermos pessoas melhores. Nós é que não nos damos conta, retribuímos com indiferença e vivemos como se não fizesse diferença alguma viver.

.um grão de sal

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu…

Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu…

Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu…

Música de Jorge Drexler, Versão de Paulinho Moska